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"[...] cá entre nós, isto é uma parábola: um bom astrônomo saberá ler nas estrelas sinais e símiles que nos permitem silenciar muitas coisas." (F.W. Nietzsche)

domingo, 16 de setembro de 2012

PARTE III – OS DOZE SIGNOS E AS SEIS CLARAS LUZES SECUNDÁRIAS

A RODA DO SAMSARA E OS LOBOS QUE WOTHAN DOMOU
PARTE III – OS DOZE SIGNOS E AS SEIS CLARAS LUZES SECUNDÁRIAS


Mesmo quando teus feitos estejam sendo contados, não fiqueis apavorado, ou aterrorizado; não mintas, e não tenhais medo do Senhor da Morte. Teu corpo sendo um corpo mental, és incapaz de morrer mesmo quando decapitado ou esquartejado. Na realidade, teu corpo é da natureza do Vazio; não temais. Os Senhores da Morte são tua própria alucinação. O corpo de desejos é um corpo de propensões, e vazio; o sem-qualidade não pode ferir o sem-qualidade.” (Bardö Thödhöl)


No Bardö Thödhöl, o Livro dos Mortos tibetano, existem detalhes minuciosos sobre como é a jornada do “morto”, desde sua morte até sua próxima encarnação. O povo, e os estudiosos ocidentais mais superficiais, acreditam nisto literalmente apenas. Sacerdotes de vertentes do Budismo mais populistas e safadas estimulam o tipo de crença, nas pessoas, de que seus parentes estão sofrendo tormentos horríveis no Naraka Loka por exemplo, e na China existe até um comércio de “dólares do inferno”, um maço de dinheiro falso que compram nos templos e queimam como oferenda ao parente morto para que ele possa pagar suas contas no inferno, ou mesmo subornar um Juiz.

Cretinices à parte... a constituição fractal da realidade material assegura que, pelos mesmos processos que regem a transmigração da alma (teoria da originação dependente), também a mente humana transmigra, EM VIDA, entre vários planos oblíquos de significação da estrutura cultural habitual. Isto acontece com o trânsito dos astros através dos signos.

O Samsara, o mundo da dor e da ignorância, pode se manifestar de uma ou mais maneiras, fisicamente falando, mas para cada manifestação física deste universo existem seis manifestações samsáricas (potências interferentes das modalidades estruturais das linguagens racionais) que determinam como a realidade física será percebida e vivenciada. No Bardö Thödhöl, descreve-se alegoricamente como a alma do “morto” (viajante, transeunte, enfim, o que caminha) vê cada um desses          reinos ou Lokas, as luzes e paisagens que sobrevirão indicando à alma transmigrante o seu próximo “mundo” a vivenciar.

Na doutrina budista dos Rokudō-rinne (os Seis Caminhos), a alma transmigrada encarna em um desses seis possíveis reinos ou Lokas, planos de realidade ontológica que determinam o viés com que a realidade sensorial e intelectiva é percebida, atuando na estrutura cultural habitual. Os seres progridem em Elix por ignorância dos laços que os prendem ao Maya, segundo o princípio da originação dependente: o desejo-paixão gera karma, e o karma, alterando a “densidade” da alma num esquema de camadas que constitui a realidade no Samsara, a faz subir quando fica mais leve e descer quando acumula mais karma e pesa mais; Avalokiteshvara aparece com um aspecto próprio em cada Loka, e por seu aspecto de manifestação é possível deduzir aonde o “morto” se encontra. Como eu já enfatizei, uma interpretação mais refinada define os Lokas como planos não de manifestação, mas de significação (ver a esse respeito os comentários de Kazi Dawa Samdup sobre o Bardö Thödhöl).

É perfeitamente possível supor que no jogo cósmico onde nós, Viryas, seres sencientes E conscientes, combatemos o Samsara e suas forças geratrizes, o inimigo, por conveniência estratégica, efetue uma transmigração ontológica para prender ao Karma um Virya que começou a se mover estrategicamente, e assim anular seu movimento, como os peões no xadrez se travam quando colocados um defronte do outro.

Supondo a possibilidade de, via um símbolo sagrado simples ou complexo, haver uma transmigração ontológica do microcosmo do Virya para um Loka distinto, a consciência não o perceberia, pois suas funções internas (as esferas de sombra, os sentidos) permaneceriam inalteradas, e a mente humana não tem uma auto-consciência imanente e perene o bastante para perceber uma alteração de enfoque intelectivo ou plano de significação (da mesma forma, é impossível à razão vivenciar a continuidade da significação a não ser pela instância de significados sucessivos, como exposto exaustivamente nos FSH1). A consciência imanente dos planos de significação e da estrutura cultural habitual é impossível de se atingir para os que não ascenderam ao Arayashiki, o oitavo sentido da consciência imanente e verticalizada (curiosidade: na série de anime Saint Seiya, os guerreiros precisaram desenvolver o Arayashiki para conseguir entrar e sair com vida e consciência do mundo dos mortos... na verdade, tal estado permite entrar e sair vivo e consciente de qualquer plano de significação, de qualquer exploração de registros necessária). E exceto na hipótese de uma fagocitação da consciência por um símbolo sagrado, uma psicopatologia neurótica ou um esforço consciente da vontade, tal transmigração do plano de significação do Ego é possível de acontecer por um segundo grau de determinação.
Um ataque deste grau de sutileza, impossível de prever e pressentir, tem a virtude de capitalizar a Vontade Egóica do Virya para uma porta falsa e mantê-lo longe de Thule. Sabido isto, é óbvio deduzir que a transmigração, SE em S.G.D., é operada de acordo com o que mais vai fragilizar o Virya em questão. Quando segue a sequência harmônica do trânsito dos astros, o processo é mais linear, e eu exporei a seguir como seria a jornada do primeiro ao último dos infernos, e o que isto tem a ver com os Signos.

O contato inicial com a Opus de Nimrod de Rosario costuma produzir um Kairós, uma instância onde é possível se iniciar auxiliado pelo impulso de uma energia espiritual aterradora que se liberta no instante do choque psicológico que tal Opus propicia. Digo “costuma” produzir um Kairós, pois nem sempre é o caso; de todas as formas, é uma experiência espiritual muito forte, que temporariamente multiplica a energia psíquica e a canaliza para uma vontade expressa, a de libertação. Dado isto, a reação da Alma, e a reação dos senhores do Karma, NA FORMA DE MECANISMOS PREEXISTENTES NA NOSSA ESTRUTURA PSÍQUICA, começam a se articular.

Diz o Bardö Thödhöl, alegoricamente, que o morto (alma confrontada com o labirinto) encontra a “Clara Luz Primordial”, a própria não-substância do corpo de Vajra do Buddha Amitayus; se o Virya reconhece essa luz como sendo a própria substância dele, ele abandona o Samsara e jamais volta a encarnar nos mundos ilusórios da dor. Se ao contrário ele teme a luz fulgurante, então a Clara Luz Secundária se faz presente em seis diferentes tons, e o tom que mais atrair o morto determinará o Loka onde deverá reencarnar. Isto quer dizer que o Virya pode sublimar a alma no momento do contato com o Espírito, no furor inicial – perdida a chance, vítimas da nostalgia ou de outro sentimento, ele recai no Karma e precisa recomeçar a luta pela libertação, como o rei da Bavária que John Dee tentou iniciar.

DEVA LOKA – O PLANO DOS DEUSES – EIXO VIRGEM/PEIXES

Quando o Virya toma contato com seu poder espiritual e se sente um Deus invencível, lembrando em seu Sangue que o é, o karma começa a enredá-lo invisivelmente, de forma que pareça dobrar-se à vontade do Virya enquanto na realidade o cerca e enreda. Se toda a energia desenterrada da incipiente esfera Ehre não é canalizada em Tergum Hostis, ela toda se dissipa em desejos – mesmo o desejo da libertação, o da vingança e a vontade de poder e potência, são racionalizados e, portanto aumentam a energia Kármica. “A César o que é de César”: todo pensamento racionalmente construído prende ao mundo e gera karma.

O primeiro passo do Karma, que chamaremos “Inimigo” posto que é a vontade do Rex Mundi, é transmigrar ontologicamente o Virya, ou seja, envolver sua alma na esfera do Deva Loka, o mais alto dos seis mundos do Samsara, onde os deuses e semideuses se deleitam com sua própria glória. Atraído por uma terna luz branca (similar, mas inferior em brilho e intensidade, à Clara Luz Primordial), o morto encontra templos e mansões titânicas construídas de pedras e metais preciosos – tal é seu estado mental. Quando isto acontece, o Virya se torna cada vez mais seguro de si e de sua jornada espiritual, queimando todo o Vril em desejos do devir, e buscando poder no mundo ao invés de transcender e escapar do mundo.

As pessoas tanto de Peixes quanto de Virgem tem traços em comum. Retraídas, introspectivas e altruístas, são o aspecto feminino da dedicação e do cuidado aos outros, puxando respectivamente para o emocional ou para o racional essa missão inata do auto-sacrifício ordenador do mundo. Indo mais fundo, Virgem e Peixes são as duas forças primárias de dispersão da energia egóico-volitiva. Virgem peca pelo excesso de detalhamento e racionalização, e Peixes por recolher todas as impressões para o subconsciente profundo da esfera emotiva – em ambos os casos, a energia psíquica é impedida de se transformar em ação imediata, por sentimentalismo ou racionalização excessivos.

Signos femininos, Vesta e Derceto, são ambos os mitos de Virgem e Peixes mitos que aparentam uma fragilidade exterior, mas representam uma força interior de resiliência e ordenação harmônica do microcosmo (aqui, tomar “harmônica” no sentido original de sincronização ao plano entelequial). Se um astro está em Virgem no mapa astral, a tendência será de uma harmonização criteriosa e racional daquele astro à sua função arquetípica; em Peixes, se dará uma sincronização arquetípica por um processo mais subconsciente e apaixonado, com resultados opostamente similares.

Por causa disso, este eixo equivale ao Deva Loka, pois diz a doutrina budista que o céu dos Devas é o pior dos infernos: um pensamento dissonante da onda harmônica pode aniquilar o indivíduo eternamente, ou seja, estamos diante de uma poderosa força restauradora do trânsito da alma pelos Elix.  

O objetivo do Karma nessa etapa inicial é duplo. Por um lado ele deseja justamente que o Virya em vias de despertar adquira uma confiança imprudente e pense dominar a situação para não perceber que sua vontade está sendo canalizada para o cognoscível e o mundano pela racionalização típica de Virgem, mesmo com toda a roupagem espiritual que o poder de auto-ilusão netunino de Peixes fará crer autêntico. Acontece que, mesmo que seja uma fase de vitórias e avanços para o Virya, todo desejo aplicado ao mundo causa energia kármica, e o segundo objetivo do inimigo é fazer acumular energia kármica o bastante para tornar o corpo astral mais denso e causar o afogamento gradual nas camadas inferiores do Samsara: aqui se acumula a energia kármica para impulsionar a descida-armadilha até o Inferno.

Mas nesta fase inicial o Virya ainda se sente importante. O próprio Belicena Villca instila nas mentes a nostalgia pelo passado, nossas civilizações guerreiras e heróicas e a forma injusta e maligna com que foram derrotadas, e toda a decadência do Kali Yuga. Se o Virya não sublima essa nostalgia incorporando em si as qualidades dos nossos antepassados, desejará recriar, recuperar, vingar ou ao menos prantear o passado (quando o passado deveria ser na realidade incorporado e sublimado); é esse desejo-paixão subconsciente pela própria Minne que é o primeiro extravio, propiciando a vivência do Deva Loka e o acúmulo de Karma. Neste plano, Avalokiteshvara aparece como Buddha brGya-byin com a flauta doce dos prazeres, ensinando aos devas que não devem se orgulhar em demasia por sua posição no mundo mais alto, pois eles também deverão eventualmente reencarnar. Neste Loka o veneno agregado é o Orgulho, e pela imprudência da arrogância muitos hiperbóreos caem no Karma.

Esta é a forma de sofrimento, pisciano, oculto, dos Devas, deuses e semideuses do Samsara: o passar do tempo que indica a proximidade inevitável de seu fim, a agonia das areias do tempo fluindo rumo ao esgotamento... no subconsciente de cada Deva, no fundo das cavernas de Derceto, existe a finitude como último pavor. O Virya preso neste plano também começa a sentir essa agonia na forma da urgência da ação, da necessidade de agir, e conforme o próprio mundo-Deva o rejeita por sua postura luciférica, pervade nele um sentimento de impotência, de que deve arrumar uma Estratégia para guerrear contra os Devas, mesmo antes de sua individuação completa. Tal urgência imprudente desvia o foco da Gnosis do micro para o macrocósmico, e cada vez mais se fará essencial para o Virya um tipo de “espiritualidade” racionalmente inteligível. Ele se sentirá subitamente impotente frente aos Devas de Shambhala, e os verá interpostos no seu caminho (quando, no início, a pureza de sua energia espiritual poderia tê-los incinerado por Nirvana: o poder hiperbóreo da Extinção do Manifesto). Quando o Virya então cai no desespero de buscar uma estratégia imediata, se unindo a pessoas como ele não preparadas para tal, Avalokiteshvara gira a roda do Karma e transmigra o Virya para o plano imediatamente inferior.

ASURA LOKA – O PLANO DOS TITÃS – EIXO LEÃO/AQUÁRIO

É bastante comum um círculo de Viryas que se reúna fora de um Kairos ou onde o estado mental dos indivíduos não está isolado o bastante, que indivíduo e coletivo transmigrem psicologicamente para o reino Asura, onde o sentimento predominante é a inveja alheia pelos frutos da Árvore do Conhecimento: atraído por uma terna luz verde (como o Raio Verde que emana da Origem, porém muito inferior em qualidade), a alma andará como que em uma floresta faérica, ou entre círculos de fogo fluindo em direções opostas, indicando sentimentos de religiosidade arrogante e violência como prazer. Neste Loka, Avalokiteshvara se manifesta como Buddha Thag-Bzang-ris numa armadura de cavaleiro, erguendo uma espada para reprimir as brigas por inveja (claro, reprimindo os que se rebelaram contra os Devas e a ordem kármica do adharma, ou seja, nós os luciféricos).

O Asura Loka é um lugar de disputa e guerra constante, e por esta natureza é uma armadilha fácil para os Hiperbóreos, cuja postura rúnica expressa para o sensível o Tergum Hostis. O Veneno Agregado que anula um Valor incipiente é a Inveja, neste Loka, mas inveja nada mais é do que uma expressão terrífica do desejo-paixão, que provém da ignorância da real situação do Selbst. Explico.

A própria natureza do Tergum Hostis, recuperado gradualmente no caminho gnóstico, implica um esforço isolante ativo, possui uma natureza ígnea, ativa. A maioria dos Viryas traduz tal natureza ígnea pela esfera astrológica de Marte, a ação, a guerra, a atitude viril; porém, pela ignorância da real situação, absolutamente transcedente, do Selbst, deduzem que necessitam de alguma forma de ação externa para si próprios, a priori da orientação absoluta. Então, pela força da ignorância, o desejo-paixão se manifesta de forma marcial pela vontade de guerra, pelo orgulho marcial, e sem perceber os Viryas são privados de sua jornada isolante e caem na atitude de amor mundano pelo samsara, ao querer transformá-lo: para um Virya extraviado dessa maneira, a cultura, a política, os caminhos e descaminhos do mundo serão de grande importância, e ele nutre um desejo de transformação radical da realidade do mundo que, por nobres (e não raro nobilíssimos) que sejam seus objetivos, nada mais são que amor ao mundo, um amor que exige uma purgação prévia para poder ser expresso e fruído.

                Astrologicamente falando: a agonia pisciana causada lá atrás no Deva Loka pela consciência da finitude se traslada para Aquário, seguindo o “caminhar do Sol”; Aquário, regente da casa gregária e social chamada Benefacta, dará à psique do Virya um enfoque coletivista para a Gnosis; ele buscará avidamente seus iguais, e associar-se e fechar-se em círculo adquire uma preeminência maior do que o caminhar individual.

                Indo mais fundo: enquanto a ideia sintética por trás do eixo Virgem/Peixes é o Sacrifício do Ego pela harmonização arquetípica, a do eixo Leão/Aquário é a de Redenção pela Dedicação (aplicação da vontade consciente capitalizada por um símbolo agônico): o Aquariano, gregário, tenderá a sempre se dedicar a algo de maneira sacralizante como forma de redenção pessoal, e o Leonino, pensando a mesma lógica na direção inversa, sempre tenderá a oferecer e exibir ao mundo o que ele julga de valor em si, esperando uma valoração positiva do mundo – definindo a si mesmo em termos desta valoração. Vale a pena notar que até aqui, e na verdade SEMPRE, a ação dos signos será a de capitalizar a vontade e neutralizar seu caráter egóico.

                Leão, regido pelo Sol, cujo coração Regulus é um dos quatro Grandes Arquitetos Celestiais que regem o plano material (os demais sendo Fomalhaut, a Boca do Peixe, com seu famoso formato de olho de fogo; Antares, a Cauda do Escorpião; e Aldebaran, o Olho do Touro), é um signo extrovertido e de coração aquecido. Aquário, mais racional e frio, é sua antítese aparente, mas ambos se unem arquetipicamente na questão da anulação da autopoiesis do Ego, na definição de si mesmos a partir da valoração externa. São forças que geram este extravio do Ego, e representam o céu dos Asuras ou Titãs que estão em eterna disputa, pois o poder interno se perdeu, e tenta-se recuperá-lo exercendo poder sobre outrem ou outra coisa.

Aqui, o cerne do extravio está em supor um vir-a-ser, de si ou do mundo, mensurável e qualificável, sendo que o Ser é absoluto (a princesa Isa advertiu Nimrod de que, em seu retorno, ele despertará de tal forma que parecerá que todos os Kalpas de aprisionamento terão sido um efêmero segundo) e não pode vir-a-ser, mas é imutável em seu corpo incorruptível de Varuna-Vajra, o verbo diamantino do Fogo Frio absolutamente imóvel em Si Mesmo. Isto significa que o Virya crerá na necessidade de criar algo para o mundo para poder vir a ser, para cumprir com uma meta ou uma noção de Honra (lembrando, de Nimrod de Rosario, que “Honra” é tão-somente a resignação de símbolos ontológicos: nenhum código moral ou de conduta, mas toda a liberdade e poder latente do Caos na resignação sêmica, na purificação da Ignorância).
 
Presos em Asura Loka pela projeção temporal do Ser, os Viryas desprendem sua energia no mundo sensível e para o mundo sensível, dependendo da companhia, da colaboração e acima de tudo do feedback de outros (tendência gregária na formação de círculos e no convívio em círculo); sendo mais político, ideológico, dialético, do que propriamente espiritual (portanto, em-tempo e cultural); colocando uma missão “para os outros” em destaque, buscando agir na macroestrutura fora de um Kairos coordenado por um Centro Carismático transcedente, na esperança de que a dedicação a outrem purifique o próprio sangue, sendo que a purificação absoluta, o conhecimento alerta de si mesmo, é requerida a priori de qualquer movimentação macrocósmica por uma questão mesma de segurança e de se saber o que faz; finalmente, após mergulhar no desejo-paixão de reforma do mundo, de purgação beatífica pela ação e de heroísmo salvífico (repito: frutos da Ignorância da natureza eterna do Eu e da ação dos Khairé), o Virya cai nos estados mais baixos possíveis de paixão dentro do Asura Loka. Seu comportamento se assemelhará ao dos próprios Asuras, que são como deuses, mais impulsivos e arrogantes, menos benevolentes e menos impassíveis do que os Devas.

Uma nota importante: não faço nenhuma crítica às estratégias psicossociais e macrocósmicas EM SI, nem à sua utilidade ou necessidade; o que estou descrevendo são indivíduos que buscam uma ação exterior a priori da interior, por temer a ação interior necessária, ou achar que vá ser "salvo" pela dedicação a uma ação exterior.

Já neste ponto, o desejo-paixão, força geratriz do Karma, fez acumular no Virya uma quantia já considerável de energia kármica, que implica maior cegueira e ignorância, e por isso sua atitude decai. Neste Loka, isto significa que a Gnosis se transformou primariamente numa questão coletiva, do e para o coletivo, e os rumos da política ou o atavismo de um antigo ideal significarão mais que a interiorização. É a preeminência do externo sobre o interno. Disto se segue um comportamento totalmente voltado para o gregário (logo agnóstico) que se torna político em essência, a própria essência venenosa do Asura Loka: desejo de poder e proeminência, inveja, malícia, e uma atitude lúdica e teatral em relação ao próprio Ego, que precisa agradar e ser apoiado por outrem. Um Virya neste estado verá beleza e valor somente naquilo que “transforma” o mundo, que dá resultado: por incrível que pareça, é comum mesmo no métier ocultista achar uma mentalidade Realpolitik, pragmática, voltada para resultados. A forma da ação toma proeminência por sobre sua essência sêmica, noológica, que fica sutilmente em segundo plano, ainda que não se o perceba. Moralismo. Melancolia patriótica e geosófica. Ligação sentimental com a terra ou com a pátria. E o pior de tudo, uma soteriologia subentendida que é francamente vergonhosa para alguém cujo objetivo é a individuação ôntica.

No final do Sidpai Bardo, na iminência do renascimento, a consciência escolhe sua matriz para o renascimento, porém quanto mais impura a massa que constitui essa matriz, mais atraente será seu cheiro – quem tem ouvidos que ouça.

Aos presos neste Loka, o ensinamento taoista do ser-pelo-não-agir (em-tempo) será pior compreendido como covardia ou apatia, ou se compreendido, será temido e tomado por absurdo. E tal incompreensão deriva da Ignorância mencionada: crerão no vir-a-ser (fazer acontecer) e estarão tomados de paixão por formas eidéticas ou morais, lúdicas ou sacralizadas, do Mundo.

Além deste ponto, o Virya não mais conseguirá ou desejará verdadeiramente olhar para dentro de si, pois o desejo-paixão mundano terá tomado toda a Vontade efetiva. Sentirá uma confiança exterior em sua imagem lúdica projetada de guerreiro ou iniciado, mas interiormente será devorado pelo próprio Tergum Hostis do Espírito que começou, lá atrás, a despertar.

MANUSIYA LOKA – O PLANO DOS HUMANOS – EIXO CÂNCER/CAPRICÓRNIO

Tal choque essencial gerará a tensão suficiente para que Avalokiteshvara gire a roda do karma e o Virya seja transmigrado do Asura Loka para o Manusiya Loka, o Mundo Humano, atingido pela junção de paixão, desejo e dúvida. Atraído por uma terna luz amarela, o Virya assumirá este plano que, segundo algumas fontes, é o único dos seis planos a partir do qual é possível escapar ao Samsara, e compreendendo os Lokas como estados mentais entende-se a advertência do Pontifex de que um equilíbrio perfeito entre as esferas afetiva e racional é essencial para apontar a consciência ao Selbst. Avalokiteshvara aqui se manifesta como o Buddha Sakyamuni que anda com o cajado e a tigela de mendigo para ensinar a humanidade a rejeitar a ignorância do ódio (ou, usando uma linguagem cabalística, substituir a águia pela pomba...).

Como um reforço geográfico a esta idéia de centralidade, as cúspides das casas 4 e 10, regidas por Câncer e Capricórnio, ocupam respectivamente as posições do Sol à meia noite, e ao meio dia, ou na terminologia astrológica, Imum Coeli e Medium Coeli; o plano humano é o ponto decisivo intermédio onde todas as emoções e pensamentos dos outros Lokas confluem, e o objetivo da neutralidade se torna mais palpável.

A palavra-chave para a ação psíquica do eixo Manusiya, composto por Câncer e Capricórnio, é "âncora": o mundo humano, sempre pendendo num equilíbrio de fio de espada entre o animal e o divino, vive sendo arrastado do divino para o animal de maneira dolorosa pela ação do Kaly Yuga. Nos aferramos à personalidade encarnada desde o nascimento do Ego, pois Câncer, regido pela Lua, é a própria geratriz primitiva do Ego, cuja matriz são as reações subconscientes que se acumulam e são estruturadas a posteriori pelo Sol. E no entanto, e aí está a armadilha, justamente por ser o Ego um construto cuja matéria prima vem de fora (dos símbolos que impactam a esfera de sombra), ele depende eternamente dessa retroalimentação externa: no mito de Capricornius, os filhos de Pricus eram irracional e irreversivelmente atraídos pela terra firme, e continuavam correndo do mar para a terra por mais que isto significasse a anulação de si mesmo, a animalização do ego (proeminência das reações da esfera de sombra). Isto porque Capricórnio explora justamente a incompletude canceriana do ego, e tenta criar novas âncoras, novas formas de estima através de objetivos idealizados, do status, das responsabilidades, da profissão,  da disciplina, papéis sociais, e de todas as cadeias auto-impostas que, na lógica capricorniana, conferem ao Ego dignidade, honra e identidade.

Em resumo, esta ação dual de Câncer e Capricórnio de retroalimentação do Ego através das relações arquetípicas de valoração e sentido prendem fortemente a consciência à projeção temporal, arquetípica, de um Self eternamente em construção. Este, absorto em suas maquinações e considerações “Estratégicas”, quando sofre a transmigração de Asura para Manusya não perceberá nenhuma mudança no pensamento, mas intimamente a importância relativa dos fatores mundanos (não necessariamente materiais mas arquetípicos, racionais) na formulação da estratégia, e na vivência da Gnosis, o afastará brutalmente da orientação. É o ponto onde nas mitologias antigas se exclamou, “os Deuses nos abandonaram”, e que na carta de Belicena Villca se chama “Fadiga de Guerra”. A queda ao terceiro dos seis planos do Samsara traz uma sensação esmagadora de que “a magia se foi”. Sendo que a "magia" nada mais era do que a ciência da elevação e destacamento de Si Mesmo, a orientação Vertical.

Mesmo que não afetado na sua vontade de lutar pela orientação, a fadiga de guerra faz com que o Virya desaprenda o Vertical, o Caos como redenção contra a ordem; ele pensará arquetipicamente, e agirá arquetipicamente, caindo no Labirinto. Aqui, não adianta o quanto se conheça dos princípios espirituais da via da Mão Esquerda, pois o íntimo, o coração, não saberá mais operar com a vontade egóica, amoral, ilógica, despreocupada com o externo. A moralidade prevalecerá sobre a Gnosis.

Perdido o princípio verticalizante, o Virya estará sujeito totalmente à vontade do Karma, e como os milhões de europeus que lutaram inconscientemente pelos princípios hiperbóreos de Montségur e de Wewelsburg sem conseguir se libertar pela morte em batalha, é castigado pela grande mãe compassiva que gira a roda do Karma e o reduz a um animal.

TIRYAGIYONI LOKA - O REINO DOS ANIMAIS - EIXO GÊMEOS/SAGITÁRIO

Isso não deve necessariamente ser entendido no sentido literal. O Virya é reduzido ao princípio animal quando sofre a transmigração do Manusya Loka para Tiryagyoni Loka. Aqui é o fim do engano estratégico sutil e o início do castigo kármico deliberado e sádico. Atraído por uma terna luz azul como as águas da subconsciência, a alma verá brumas, cavernas e buracos profundos na terra, todos sinais do difuso, do confuso e pouco discernível.

Lembrando que ainda o Virya se sentirá espiritual e com vontade de lutar, pouco antes ele perdeu o gnóstico, e em Tiryagyoni Loka ele perderá também a segurança no raciocínio, caindo na aflição de precisar buscar mais conhecimento, como os animais que chafurdam na estupidez: o Virya se sentirá estúpido, logo desta transmigração. Avalokiteshvara aparece como Buddha Seng-ge rab-brtan que carrega o livro do conhecimento, e o Virya, sentindo-se impotente por seu conhecimento parco do mundo, buscará retomar a Gnosis perdida pelas vias da razão, do estudo das ciências arquetípicas e ocultas que, ele sente, lhe trará de volta o poder perdido. Ou mesmo buscará os conhecimentos do mundo, pois pensa que tal conhecimento o deixará mais combativo.


Vale frisar, porque nunca é demais, que "renascer" no mundo animal não significa necessariamente nascer do ventre de uma coelha ou de uma vaca... o que diferencia os animais do restante dos humanos é a insuficiência do conhecimento consciente, ou seja, uma maior aderência aos mecanismos racionais, emocionais e instintivos da Esfera de Sombra - como se a ação dos astros sólidos, de Mercúrio a Marte, tivessem uma força esmagadoramente superior à dos astros da esfera de luz, os planetas gasosos.

Ora, qualquer pessoa, como a maioria dos Pasus e os que tendem a um comportamento Pasu, são animais neste sentido, pois têm a cada instante seu pensamento e sua vontade condicionados pelos mecanismos da Esfera de Sombra, e construídos pela estrutura cultural habitual. A Consciência, diria Gurdjeff, é um luxo. Um luxo de poucos que conseguem escapar do arquetípico, do precondicionado.

Gemini, regido por Mercúrio, é a personificação do pensar racional, como a Lua o é da esfera afetiva; seu complemento arquetípico é Sagitário, que representa um impulso, um desejo, de partir da esfera racional rumo à esfera de consciência. O Virya transmigrado ontologicamente para Tiryagiyoni Loka viverá esse fluxo constante entre a consciência apontando a insuficiência do conhecimento, remetendo a Gemini, e da esfera racional desejando a elevação da consciência, remetendo a Sagittarius, que tenta espiritualizar os argumentos de gêmeos mas é sempre determinado sêmica e dogmaticamente, numa gangorra de aflições que desgasta ainda mais o Virya e o afunda em argumentos kármicos.

Isto significa a queda do humano pelo animal, pois a Gnosis perde até o enfoque de uma práxis da esfera de consciência e passa a ser enfocada a partir da esfera racional como corpo de conhecimentos; se afastando ainda mais da pureza original de seu poder, o Virya buscará poder no mundo, no conhecimento do mundo, na política, nas fantasias militares, e quaisquer subterfúgios que possam auferir poder de transformação do mundo sem efetuar mais o olhar introspectivo (exceto para externar passivamente os sentimentos e símbolos que inundam a esfera de consciência). O próprio signo da serpente emergirá na mente do Virya com um peso aterrador, representando a impossibilidade da libertação espiritual e emanando sentimentos de intimidação perante os milhões de reflexos mundanos do inimigo.

Os Viryas em Tiryagyoni Loka, aflitos pela insuficiência do conhecimento, estão quase destruídos por dentro, pois a tensão entre a hostilidade do Espírito e o desejo-paixão da Alma pelo signo da serpente gerará uma dor anímica que o Virya preferirá não prestar atenção, se chafurdando mais e mais no macrocósmico.

PRETA LOKA - O PLANO DOS ESPECTROS FAMINTOS - EIXO TOURO/ESCORPIÃO

Acumulando mais desejo-paixão, e já mundanizados e sem praticamente nenhuma confiança real em si mesmo ou memória da auto-afirmação gnóstica (cuidado para não confundir com projeção lúdica), gira-se mais uma vez a roda do Karma e o Virya cai rumo ao Preta Loka, o reino dos espectros famintos que estão abaixo dos homens e animais; atraídos por uma terna luz vermelha como o sangue derramado, a alma verá grandes espaços desolados, florestas destruídas e selvas hostis como sinais de que transmigrará em um espectro faminto: neste reino sente-se uma fome e uma sede insaciáveis, um impulso sempre na agonia de querer realizar sem que nunca consiga; o aprisionamento neste Loka atinge a todos os que idealizaram o irreal e o sacralizaram noologicamente. Avalokiteshvara aqui aparece como Buddha Khar’Bar-ma, que “ensina a perfeição da generosidade” (uma tentativa de canalizar a tensão agônica espírito-alma para a expressão de uma vontade consciente  que outorgue sentido aos entes).

Os Pretas, na representação popular, são fantasmas, que vivem a agonia da fome e da sede, por terem sido avaros em vida, então aparecem mãos invisíveis para surrá-los quando se aproximam de água; ou têm fogo na boca para não conseguirem comer; ou então têm a garganta da espessura de um fio de cabelo, etc, etc, etc. Taurus, o Touro, representa a segurança na forma, no palpável; regido por Vênus e a esfera afetiva-consciente, sofre a agonia do desejo de segurança, de saber onde pisa. Scorpio, o Escorpião, por outro lado, é justamente a perda da segurança, é o imprevisível, é a privação e o conjunto de transformações da realidade que intensifica o desejo taurino por sentir-se "em casa": porém, em Scorpio, não há casa, não há nada no mundo que não se possa perder ou ver transformado.

O eixo arquetípico Taurus/Scorpio age nos indivíduos menos capazes de se aferrar à consciência, à individualidade, e estimula neles o desejo de paz, de cessação da dor, de sentido para castigá-los karmicamente pela morte e transformação de todas as coisas desejadas.

A manifestação dessa eterna sede que castiga os espíritos presos no mundo-Preta se dá na forma da melancolia, na saudade da aristocracia perdida e dispersa em pequenos fragmentos cada vez mais raros quanto mais baixo desce o mundo na roda deste Yuga. Como espectros famintos, buscarão com voracidade estes pedacinhos da nobreza perdida esparsos pelo mundo, na Ignorância que a nobreza é auto-outorgada e consiste justamente na capacidade de transmutar e criar para si novos valores que exaltem a Força própria. Como Nietzsche expressou mais de uma vez no seu Zaratustra, a Vontade, o Assim Eu o Quis, santifica mesmo o pior dos males, e “esta coroa de rosas, com ela coroei a mim mesmo” – “quem será mais ímpio do que eu, para que me regozije de seus ensinamentos”...


Neste estágio, o dogmatismo moral é inevitável, pois o Preta tentará encontrar uma fonte superlativa para os estilhaços de Espírito que vive a catar. Não percebem que a manifestação que buscam independe de qualquer código moral, de conduta, religioso ou ideológico. Os Viryas quererão e tentarão ser o mais dogmáticos possível, tentarão delimitar a linha entre o nobre e o decaído, entre Espírito e Matéria, mas só conseguirão assim ver uma dupla determinação ontológica em cada ente e se confundirão, traçando no chão uma espiral ao invés de uma linha reta.

No mundo dos Pretas, a Espiritualidade inicialmente pura se transforma em puro instrumento de revolta, e assume-se uma postura em tudo reativa e negativa, dialética, propagandística até, numa tentativa de redimir pela combatividade a tensão interna entre um Espírito revoltado e uma Alma que ama o mundo através do ódio e nutre desejos por ele (mesmo que destrutivos). Não se sabe mais, neste ponto, como orientar-se de fato. A única forma de purificação do Preta Loka é adquirir Sabedoria pela leitura e apreensão disciplinadas para que a via condutora reapareça diante de um Parsifal que se despiu de seus desejos mundanos e nu descobriu o castelo do Gral. É preciso aceitar os processos de perda e as mortes anímicas, ao invés de lamentar e desejar a restauração de uma "normalidade" que, para o homem essencialmente espiritual, jamais existirá.

Um assim tornado Preta sentirá um desejo irresistível de mostrar e demonstrar, quase como troféus ou sinais da esperança profunda de saciedade (saciedade que nunca chega), seus achados, e gastarão sua energia em falar e demonstrar e pregar. Chega-se ao ponto mais baixo da mentalidade judaica que Ezra Pound atacou: o agir dialético, a luta de argumentos, a gnose que desce ao reino inferior da Lógica e do embate dialético, a dualidade maniqueísta perde seu efeito verticalizante e isolante e se torna moral.

Pensando em termos temporais, a estadia no Preta Loka é a mais prolongada; isto porque o Virya aqui está, em termos gnósticos, praticamente destruído, e isto pode ser sentido mesmo naqueles que mais expressam vontade e confiança, por sua recusa terminal em deixar o mundo ao seu devir e olhar para dentro de si mesmos. Na realidade, o Virya permanecerá aqui sustentado apenas pela sua vontade de lutar a guerra essencial, derradeira manifestação do Espírito (não nos esqueçamos de que Scorpio, regido por Plutão e por Marte, é um signo essencialmente guerreiro): enquanto houver vontade, os Devas manterão a psique do Virya desorientado nesse Loka espectral e agonizante, pois o grau de agonia do inferno logo abaixo desse poderia ter um efeito adverso, fazendo o Virya explodir o Vril num acesso de Ira durante o qual recuperasse sua orientação. Alta sabedoria dos torturadores: a tortura que causa mais sofrimento e agonia, a que paralisa a vontade, não é a tortura mais intensa, mas a quase-mais-intensa, a que mantém uma mínima e velada ameaça de piora.

Nossas mentes, como macacos excitados, viveu em ciclos de miséria desde a mais remota memória. Nos acostumamos a estar expostos a uma chuva de todos os tipos de sofrimento. Nos arrastando nas correntes de uma grande variedade de corpos, nos arrastamos de novo e de novo para a grande montanha da roda do renascimento. Mas ainda há algo difícil de percebermos, de reconhecermos, pois nossas mentes estão lotadas com os hábitos de sofrimentos passados. Precisamos buscar, desde o início, controlar este macaco excitado – a mente voando constantemente de uma coisa a outra. Se falharmos nesta tarefa, só nos resta o tormento incessante dos Lokas inferiores; trancados no círculo dos nascimentos pelos inimigos de nossas próprias mentes, para sempre perderemos a chance de felicidade”. (do texto “Casa do Tesouro do Mais Alto Conhecimento”, de Vasubhandu, 350d.j.c.)

Como dito pelo mestre hindu, todo este sofrimento se deve a algo “difícil de percebermos”, e que consiste no Espírito em si como princípio autopoiético, no voltar o olhar para si, verticalizando o tempo transcedente do vir-a-ser para um plano oblíquo onde o Ser é imanente. A perda desta consciência permite cairmos no ciclo das causalidades arquetípicas que constitui o Samsara, e portanto estarmos sujeitos ao Karma ou o conjunto das “leis” causais. No entanto, mesmo com a aura tingida de vermelho pelas aflições do Preta Loka, ainda há o último e mais resistente elemento gnóstico que mantém o Virya a um fio de navalha do abismo de sofrimento total: a Vontade de libertação, ainda capaz de extrair das profundezas do corpo astral algo de Vril.

NARAKA LOKA - O PLANO INFERNAL - EIXO ARIES/LIBRA

A última e definitiva queda ocorre quando o Virya abandona conscientemente o desejo e a Vontade de libertação, e abdica do Espírito, que passa a odiar e ver como a causa de seu sofrimento. Após um curto hiato onde ele falsamente se crerá aliviado, a roda do Karma irá girar e prender o Virya de uma vez por todas no Naraka Loka, o próprio Inferno. Atraído por uma luz cinza-esfumaçada, a alma ouvirá berros de tormento e verá paisagens desoladas com casas totalmente escuras, tal será seu estado mais íntimo. O Loka chamado de Naraka ou Naraya submete os penados a extremos de calor e frio, tornando o próprio existir insuportável. Avalokiteshvara aqui aparece como Dharma-Raja, o próprio Juiz das ações dos seres (na mitologia grega, este ser está separado como uma trindade – Iaco, Radhamantys e Minos – o que me faz pensar sobre a própria Trindade cristã ou o Trimurti hindu, como um mecanismo inerente à Esfera de Saturno...), carregando água e fogo para aliviar os extremos de temperatura e assim ensinar aos seres do Inferno a “Perfeição da Equanimidade”.
A lição do Inferno seria a Equanimidade, pois os extremos de temperatura significam que a mente está sujeita ao extremo ao desejo-paixão animal, sem quaisquer outras considerações, atraindo karma para si numa taxa exponencial e incessante. Aqui estão todos os descontrolados ao extremo, impulsivos, desesperançosos e sedentos em “viver a vida” sem mais, para sempre presos às conseqüências kármicas de seus desejos anímicos, conseqüências que serão mais brutais e sádicas quanto mais no passado o Virya experimentou do fruto da árvore proibida da Gnosis.

Estar em Naraka significa o Karma mais pesado concebível, justamente por estar entregue e passivo diante do desejo-paixão anímico: não haverá, aqui, nenhuma reação consciente aos desejos, nenhum pensamento crítico, apenas um seguir cegamente aonde a luz das paixões conduz a mente. Tal impulsividade irrefletida é o signo de Aries agindo na esfera de sombra, identificado com o fogo primordial, com o Principium que é pura moção e ordena os entes temporalmente - o Demiurgo, Prajapati, criou antes de qualquer coisa Agni, o Fogo, que sendo primitivo e descontrolado quase devorou e incinerou seu pai aterrorizado. Do lado da esfera de luz, Libra representa o oposto: a reflexão sem capacidade para agir, a consciência lúdica ludibriando a si mesma para justificar a indulgência com a qual permite a si mesma os excessos danosos da alma. Tal tensão agônica entre uma vontade inconsciente e uma consciência apática, comedida e ponderada em excesso, presa em racionalizações, faz com que o indivíduo fique sem rumo, sem responsabilidade sobre a própria vivência sobre a terra, sendo o passageiro impotente daquela carruagem descrita por Gurdjeff e Ouspensky que, descontrolada, ruma inexoravelmente para o abismo e a morte do passageiro.

Esta impulsividade do desejo, a própria essência de Áries, pode ser sublimada com a equanimidade e a temperança de Libra, assim como Shiva com um movimento simples da mão incinerou o outrora temido deus Kama, o Desejo, mas quem cai em Naraka Loka possui contra si as forças mais esmagadoras que não permitirão sua subida aos planos superiores, conscientemente: sua única esperança é que o Espírito semidesperto supere em algum momento a Alma mortal e, apesar da consciência abatida ou agindo contra ela, logre despertar num plano oblíquo... porém, a Luz Não Criada que pode inspirar o Espírito a agir de tal forma só virá, provavelmente, quando a Wildes Heer desça sobre a terra e a Virgem de Agartha finque seus estandartes sobre as muralhas de Shambhala. Isto significa uma quase-impossibilidade de despertar consciente – de fato, contam os budistas que o período de encarnação no mais leve dos infernos pode ser contado enchendo um barril de sementes e retirando apenas uma semente a cada cem anos terrestres...

RESUMINDO TUDO

Eis a descrição dos seis Venenos Agregados ou Lokas, os “planos do desejo” que constituem o Samsara: todo o Universo do Uno está estratificado nestas seis esferas, mais dezessete que constituem os “planos da forma” ou plano Arquetípico, e outros substratos mais sutis e incompreensíveis à razão humana. As Mônadas estão fadadas a repetir o ciclo do Samsara ou serem incorporadas ao Uno nos planos sem forma. A purificação de semelhante veneno foi o que Nimrod de Rosario buscou fornecer com suas obras mágicas, entretanto o próprio processo de leitura sujeita os Viryas aos mecanismos kármicos de transmigração ontológica, provocados ou por um segundo grau de determinação ou mesmo por um desvio de foco da Vontade que soergue e inunda a consciência no contato com a Opus de Nimrod: se isto acontece, o Virya não compreendeu a extensão enorme do conceito de ocupação e cerco, extensão que vai das posses materiais grosseiras aos mais intrincados valores morais e traumas da mente subconsciente. Todos os quais precisam ser suficientemente arquemonizados para quebrar a cadeia das relações de sentido e alçar o Vôo do Pégaso. Mas a falta de tais “asas” capitaliza a vontade do Virya para o devir do Mundo do samsara.

Literalmente, de boas intenções o Inferno está cheio: o discurso da maioria dos Viryas é nobre, mas são corrompidos desde o interior da alma pela transmutação da Vontade de Libertação acima-do-tempo (Kairós iniciatório perdido por impureza espiritual) em Desejo de Poder em-tempo (Deva-Loka), e como conseqüência lógica em Desejo de Guerra contra-o-tempo (Asura Loka), quando o Vril já está acomodado como uma pilha para o funcionamento da Alma que, condicionada pelo substrato cultural fornecido pela teoria que sustenta a Gnosis, perderá a prática gnóstica em si (Manusya-Loka). A partir de então, a Gnosis se perderá como práxis e se buscará fonte de poder nos conhecimentos arquetípicos (Tiryagyoni-Loka), gerando um vazio interno e uma tensão Espírito-Alma na forma de sofrimento, quando se buscará fora de si, no macrocosmo, na história do mundo, exemplos que relembrem os fragmentos de Espírito perdido (Preta-Loka). Um dia tal busca levará o Virya à exaustão e, acenando com a rendição, ele será liquidado (Naraka-Loka).

Nimrod de Rosario avisou em suas duas “Cartas aos Eleitos” que a Sabedoria dos Siddhas promete E fornece um grande poder. E que no entanto apenas os mais fracos desejariam usá-la para intervir no devir do Samsara – não o disse como um julgamento moral pois não há moral nem mal nem bem, nem julgamento dos Siddhas, mas que seria um desperdício: Nimrod o sabia. O que o Pontífice quis também dizer com isso era para se ter MUITO cuidado com a preeminência dos fatores arquetípicos sobre os efetivamente gnósticos. A missão para seus Cavaleiros Tirodal, que ainda existem por mais que se diga o contrário, era se preparar e aguardassem, em alerta, para enfrentar com Honra o próximo Fim da História, justamente para que se possa, sob cerco, produzir em si as transformações necessárias para escapar à roda de Avalokiteshvara. É necessário sublimar com a força de resignação do Vril todas as formas com que a Alma nos prende aos Lokas deste Samsara, e arquemonizar nossa esfera de consciência contra as projeções do subconsciente, resignando os venenos agregados sucessivamente, um após o outro. Nós que ainda não estamos totalmente libertos perdemos uma chance preciosa ao final da leitura do Belicena Villca. Cabe a nós recuperarmos a Honra cumprindo com a real missão deixada a nós pelo Pontífice, de nos prepararmos e estarmos alertas no sentido de jamais desperdiçar nossa energia espiritual alimentando desejos internos de interferência no devir do mundo.

A todos os Espíritos atormentados e confusos – aferrem-se firmemente à Canção do Pontífice, e a nada mais. Na direção dela está o ponto de fuga da Roda do Zodíaco.



PRÓXIMOS PASSOS

Existem, além dos astros, pontos específicos que são intersecções de órbitas, ou aspectações múltiplas, a se calcular no Zodíaco. De suma importância são os nodos norte e sul, entidades matemáticas ou "planetas-sombra" (chhaya graha) visíveis durante eclipses, que os hindus identificaram com Rahu e Ketu, os lobos que atormentam a carruagem de Surya (o Sol), e que são ligados arquetipicamente a Gere e Freke, os lobos de Wothan. Estas duas entidades ajudam a desenhar no horóscopo a direção do caminho entelequial da alma nesta encarnação específica, e por conseguinte fornece um indicativo do que seria um ponto de escape na roda do Zodíaco. Falaremos sobre isto em alto grau de detalhe no próximo artigo, a parte IV desta série! 
           Por último, na parte V, darei, depois de todas as informações básicas, a técnica de interpretação do horóscopo com base e referências analógicas aos modelos psíquicos desenvolvidos por Nimrod de Rosario.


"Era ISSO a vida? Pois bem, mais uma vez!" - F.W. Nietzsce




Ennoia, Isaria,
Aus der Lichte der Mond
Aus der Dunkel der Nacht
Nahst du dich in deiner Macht

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